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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

O papel dos professores na escola moderna

A escola mudou muito desde o século XIX até aos dias de hoje: de instituição elitista, selectiva e promotora de valores ligados às classes burguesas e eclesiásticas até ao pós - 2ª Guerra Mundial e a massificação do ensino, bem como o acesso das classes populares ao mesmo ou a integração dos jovens provenientes das mais diversas paragens geográficas que têm afluído à Europa e, mais concretamente, à Península Ibérica. A escola é hoje uma instituição incontornável dos Estados pós-modernos e merece um olhar sociológico sobre a sua realidade no contexto dos valores, costumes e crenças dos povos do século XXI.
É na escola que se constrói a sociedade do futuro mas também esta é o receptáculo mais fiel do produto social do momento: a violência escolar, o conflito, o racismo, a xenofobia…).
O problema das migrações está hoje na agenda política e social da grande maioria dos países ocidentais europeus. Se, para a Europa do norte, tradicionalmente receptora de imigrantes, esta questão tem já décadas de trabalho e reflexão, para a Europa do sul, a reflexão e o desenvolvimento de planos de acção está agora a começar. Por exemplo, a Península Ibérica tem vindo a modificar-se e a passar de terra de emigrantes a ponto de chegada de imigrantes.
A discussão continua acesa pelo facto de, na actualidade, o mundo estar a viver uma das maiores crises económica e financeira de que há memória. O crash financeiro associado ao colapso da economia americana e europeia acentuou as desigualdades entre os países e entre as classes sociais. O acesso ao emprego está cada vez mais difícil, a segurança social (na Europa) contraída, o aumento da esperança média de vida estão a provocar uma crise de valores cada vez mais evidente. O imigrante foi apanhado neste mare magno de escombros em que se transformou o chamado mundo desenvolvido. O crescimento do apoio popular aos partidos defensores de ideais xenófobos tem vindo a aumentar devido à desinformação e à demagogia utilizada para acalmar os nacionais face aos problemas do desemprego e da perda de regalias sociais.
No entanto, desde o alvor da Humanidade que o Homem tem levado uma vida errante pelo mundo, tem sido uma espécie de migrante. Aliás, desde cedo que os povos, mesmo os sedentários, se viram obrigados a procurar melhores recursos para se estabelecerem fugindo às intempéries, às guerras ou, como ainda hoje acontece, à desertificação. A demanda de melhores condições de vida tornou o Homem num emigrante e promoveu também o desenvolvimento científico e tecnológico de que os Descobrimentos e a conquista são exemplos da natureza migrante do Homem.
Depois de os europeus terem procurado as Américas como destino preferencial de uma mudança de vida é, a própria Europa, que a partir dos finais da Segunda Guerra Mundial e em consequência do auxílio norte-americano (“Plano Marshall”) se torna um espaço preferencial de imigração. O esforço de reconstrução europeu do pós-guerra apostado na construção de vias de comunicação, edifícios, portos, aeroportos, industria, comércio… devido à ausência de mão-de-obra suficiente tornou-se terreno fértil para a deslocação de pessoas da periferia da europeia.
A construção da União Europeia, a partir do Tratado de Roma (1957), vem dar não só um impulso económico-financeiro ao conjunto de países desta organização supranacional mas também uma concertação política e estratégica na gestão dos recursos europeus (materiais, humanos, ambientais…).
Com o fim do período dourado do emprego europeu a Europa comunitária começa a construir a sua política migratória assente em dois pilares: a) controlar os fluxos de imigrantes; b) criação de condições dignas de integração dos imigrantes. No entanto, fechar fronteiras constitui não só um violentar da predisposição natural do Homem para circular em busca de melhores condições de vida como um aumento do número de imigrantes em situação irregular.
Relativamente à União Europeia destacamos, a título informativo, a política europeia de imigração que é sustentada nos seguintes organismos e documentos: grupo de Trevi (1976); Convénio de Dublin (1990); Acordo de Schengen (1984); Tratado de Maastricht (1991).
Portugal foi durante séculos uns país onde a maior parte da sua população se viu forçada a emigrar para poder sobreviver. Desde os Descobrimentos que impuseram a colonização até à actualidade os portugueses continuam a sua diáspora pelo mundo. A existência, bem como a história, de inúmeras comunidades portuguesas espalhadas por todo o mundo espelham esta realidade.
Mas, à semelhança de outros Estados do sul europeu, nos últimos vinte anos Portugal tornou-se um país de acolhimento para muitos imigrantes. Inicialmente, até aos anos noventa, foi sobretudo procurado por habitantes dos países lusófonos que nuns casos procuravam fugir da guerra (Moçambique, Timor, Angola e Guiné) e noutros procurar melhores condições de vida económica (Brasil, S. Tomé e Príncipe, Cabo-verde). Actualmente pontificam os oriundos dos países do leste da Europa, China e Índia.
Com cerca de meio milhão de imigrantes legais (INE: 2008) este pequeno país a viver uma grave crise económica e social começa também a reflectir e a adoptar políticas de imigração de forma a adaptar-se a esta nova realidade e a escola desempenha, neste particular, um papel importante na humanização dos alunos promovendo a educação para a paz e os direitos humanos.
Na actualidade, mais que um local de aprendizagem tradicional, os professores enfrentam o desafio de ensinar a conviver segundo o princípio da tolerância face à diferença. Logo, além dos princípios reguladores da vida na organização escolar a classe docente vê-se confrontada com a necessidade de abordar as problemáticas da cidadania, do saber conviver, do respeito mútuo, da capacidade de autocontrolo… inerentes à escola cada vez mais universal do ponto de vista social.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A ruptura conjugal não impede a educação em família

A problemática dos direitos das crianças, embora mais presente na consciência social e científica está ainda num processo de construção. Prova disso, é o entendimento e enquadramento legal dado pelas sociedades à questão. Aprioristicamente achamos que uma das razões para este atraso se prende com o facto de o divórcio e a separação só agora terem atingido níveis de notoriedade social que, obviamente, estarão relacionados com fenómenos demográficos, económicos, culturais e sociais.
O modelo tradicional de família está agora diluído num conjunto de paradigmas que nos transportam a outros níveis de entendimento e de aceitação social (famílias monoparentais, recompostas, conjugais…) que, por sua vez, conduzem os cientistas sociais a procurar respostas no sentido de manter o equilíbrio educacional das crianças e jovens perante o colapso familiar.
As crianças não escolhem nascer e também não podem escolher os pais. Por outro lado, os pais normalmente escolhem como, quando e com quem querem constituir família. Se quisermos também acrescentar o factor dependência (física, psicológica, emocional, económica, social…) do menor em relação ao adulto, no que toca aos rumos que gostaria de dar à sua vida, então começamos a perceber a debilidade e fragilidade da criança no grande palco da vida social entre os adultos. Adultos que escolheram, de certa forma, a sua vida e que, com as suas decisões, irão desequilibrar a vida dos seus filhos.
O mundo hodierno está pleno de novidades para as quais as sociedades ainda procuram enquadramento. Em pouco mais de cem anos, a sociedade abriu-se 24 horas por dia e assistiu ao deslumbramento tecnológico, a mulher começa a experienciar a liberdade de decidir sobre si e a sua vida, as crianças saíram do banco do patrão para o da escola, vivemos mais e cada vez mais com melhor saúde, a esperança média de vida aumentou sonhos e a capacidade de amar e querer ser amado… Mas, toda esta vertigem acarreta dificuldades que não estavam calculadas pelo Homem, maior longevidade traduz-se rapidamente em igual aumento de responsabilidade. Esta responsabilidade traduz-se nas preocupações actuais com o ambiente, os valores, o emprego, a pobreza e a distribuição da riqueza… e claro, a aprendizagem e a consciencialização de que a educação é a pedra angular de todo o sistema.
A educação é um dos mais, senão o mais, representativos agentes de socialização se a entendermos, pelo menos, em dois círculos: o familiar e o escolar. Daí que, na sociedade do capital em que hoje vivemos, a educação tem um preço para os pais e para as nações. Entende-se que mais educação representa melhores cidadãos e maior evolução social. Estes princípios poderão claramente ser discutíveis quanto ao carácter manipulador e de coacção dos adultos sobre as crianças mas, não podem ser excluídos do padrão da sociedade actual. Hoje ter filhos não é pensar em mão-de-obra para o campo mas sim a assumpção de um amor e um desprendimento financeiro dos pais na procura de concretizar a felicidade dos filhos.
Com tanto desenvolvimento quase se torna impossível pensar o fim das coisas, da vida, do amor… é possível que isso aconteça! O que fazer então?
A literatura destaca a perspectiva abrangente que coloca sobre a mesa familiar todos os seus agentes: filhos e pais. Quando o relacionamento dos progenitores atinge o seu limite traduz-se em dor e sofrimento não só para as crianças como para os pais. Sofre aquele que já não ama, o que ama e os que querem continuar a ser amados e estimados.
Todo o fim implica o princípio de algo que deve ser assumido com racionalidade e responsabilidade. Os pais enfrentam não só o constrangimento emocional da relação que acaba mas também as consequências imediatas dessa separação: as hipotecas, os negócios do casal, a divisão dos salários, a quantificação da educação dos filhos, a mudança de casa, etc.
Esta nova etapa da vida familiar (pois o facto de ter acabado o casamento/relação não termina a família porque há filhos para cuidar) apanha sempre os pais num momento psicológico mais frágil o que, em diversas ocasiões, se transforma num problema pessoal (progenitor) e familiar (filho). Daí que assuma primordial importância a tomada de consciência por parte dos adultos, da situação e que, ainda sob o sofrimento do rompimento conjugal, sejam capazes de manter o amor pelos filhos acima da dor provocada pela separação.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Um Natal diferente…

Mais um ano se cumpre a tradição de celebrar o nascimento do Menino Jesus que, pelo menos por um dia, une o espírito dos homens em volta dos valores da solidariedade, da paz e do amor. É pena que o Natal não seja todos os dias!
Para o nosso concelho este é um Natal diferente. Nesta quadra, existem cerca de duas centenas de pessoas que perderam o seu emprego na indústria têxtil. É o resultado do encerramento desta unidade fabril. Vimos lágrimas de incerteza nos rostos de alguns trabalhadores preocupados com o futuro e com as responsabilidades que têm de assumir todos os meses.
Caminha está a transformar-se no cemitério empresarial do distrito de Viana do Castelo. Este é o resultado da inexistência de uma política de desenvolvimento económico para o município. É fácil, barato e até eleitoralmente rentável “fazer flores” aqui e ali. Difícil é governar a sério, sem medo de calendários eleitorais e de assumir responsabilidades. A nossa autarquia não consegue atrair empresas ao contrário dos concelhos de Viana do Castelo e de Vila Nova de Cerveira.
Contrariamente ao que seria de esperar, alienou a sua participação na indústria eólica com o único intuito de ter mais dinheiro para gastar. De que serve a quem ficou desempregado uma piscina ou uma inauguração com champanhe e caviar? Onde está a presidente da Câmara de Caminha agora? Muitos autarcas estariam atentos há meses, a fazerem todos os esforços para que a empresa não fechasse. Isso é servir a população!
Este é um Natal triste porque pagamos a água mais cara… um aumento da gestão do município liderado por Júlia Paula que não abdica da medida errada que adoptou dado que se vive pior em Caminha. Há fome, há frio, há exclusão no concelho!
A esta gestão municipal pede-se, que em mandato de despedida, coloque em primeiro lugar as pessoas. Não se pode gastar mais que aquilo que se tem. Endividar o município não é bom… nunca foi bom dever alguma coisa a alguém. O certo é que com esta administração, entre festas, fados e foguetes nos passaram a imagem de que governar era fazer passeios… e alguns acreditaram. Governar é muito mais que isso, é garantir aos eleitores a sua sobrevivência em primeiro lugar e ela depende de ter emprego. Quanto mais emprego houver menos cabazes se terão que distribuir no Natal!
Aproveitamos este artigo para sugerir à autarquia que se coloque no terreno e explore todas as opções para manter esta unidade a laborar. Inclusivamente, visto que os trabalhadores afirmam que a empresa tem viabilidade, a possibilidade de os funcionários gerirem a empresa. Da nossa parte cedemos solidariamente o dinheiro dos nossos impostos para servir as pessoas a recuperarem o seu emprego e a viverem com dignidade sustentando-se do seu trabalho.
Também é preciso que o município de Caminha seja informado das razões deste encerramento pois esta empresa recebeu apoios públicos, como foi noticiado, para permanecer na nossa terra. A culpa não é só do momento de crise pois existem indústrias têxteis que funcionam e resistem à crise.
Esperemos que a Câmara de Caminha mude a sua postura e comece a olhar para o concelho com visão política, democrática, estratégica, responsável e competente. Nós avisámos em artigos anteriores que fazer obras qualquer político faz. Hitler, Estaline, Saddam, Salazar são alguns casos que podemos estudar e verificar que conduziram os seus países à ruína moral, política e económica. Mas lá que eram “adorados”, no seu tempo, lá eram.
Há que colocar um ponto final no folclore e começar a derrubar os verdadeiros inimigos do concelho de Caminha: esperança média de vida inferior a Melgaço, dívida da autarquia, desemprego e deficit democrático.
Fazemos votos que este Natal coloque no sapatinho dos cerca de duzentos funcionários da Regency o regresso ao emprego, à independência e à qualidade de vida.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Tempo de mudar a escola e o curso da nossa história!

“As palavras descrevem as realidades da vida humana.
Mas têm também o poder de criar e modelar essas realidades.
As palavras dos poderosos pesam mais que as palavras dos débeis.
Na realidade, muitas vezes os débeis descrevem-se a
si mesmos com as palavras alcunhadas pelos poderosos.” (Berger, P.: Pirâmides de Sacrifício. Sal Terrae, Santander, 1979, p.21)



A educação para os Direitos Humanos está a celebrar os seus sessenta anos de existência e decidimos, por isso, fazer uma reflexão sobre este tema coincidindo com uma época do ano em que todos nós recordamos o espírito solidário e fraterno.
A sociedade actual, depois da invenção do relógio e da electricidade, passou a estar aberta vinte e quatro horas por dia tornando-nos escravos do tempo e da produtividade. Nunca na história da humanidade houve tanta riqueza e, ao mesmo tempo, um mal-estar generalizado dos cidadãos impotentes perante as instituições. Afinal, o dito desenvolvimento entendido como progresso social promotor do bem-estar e qualidade de vida, desembocou numa desilusão espelhada no desemprego, na desigual repartição do lucro, no aumento das doenças do foro psiquiátrico e nervoso, na droga, no crime, na solidão e na troca da realidade pela felicidade virtual oferecida pelas telenovelas e a internet. A sensação de déja vu parece fazer esmorecer o Homem e que Fukhuyama e seus seguidores sintetizam na afirmação de que “a História acabou… já não há mais nada”.
Nesta sociedade atemporal e anómica - alicerçada no parecer em vez do ser - e que trocou a palavra de honra pelo dinheiro começamos todos a sentir medo. Medo de morrer, de andar na rua, pelos nossos filhos… consumindo toda a nossa vontade de viver em liberdade e na felicidade. Parece que “por trás de uma utopia terá que haver sempre outra utopia” (Bakunine) mas, a nossa história, tem sido construída de sonho em sonho, desse ideal que comanda a existência.
Mas o que fazer para tornar o mundo mais justo? Investir na educação para a cidadania pois não nascemos cidadãos, fazemo-nos cidadãos. Compreendemos que é mais fácil fazer um cidadão na Europa que em África, o que não impede que comecemos a trabalhar já. É preciso que as nossas escolas ensinem valores aos nossos filhos. Que valores? Os valores universais consagrados na Declaração dos Direitos do Homem.
As decisões políticas têm falhado porque relativamente à educação, a maioria dos políticos não tem competências e conhecimentos nesta área. São mal formados. Por outro lado, a sociedade actual parece ter dificuldades em identificar os limites normativos que devem enformar a vida em comunidade tendo como consequência a alienação do indivíduo pelos valores do serventilismo e do paternalismo. Não pensar em realizar-se como cidadão mas sim como um escravo da vontade alheia.
Vivemos na obrigação de não dar opinião, mais uma vez pelo medo de perder qualquer coisa: o emprego, os amigos, a posição social… o que vão pensar de nós se decidirmos participar numa campanha política? Veja-se, a título de exemplo, o que se tem passado no concelho de Caminha.
É bom que reconheçamos que há muito a fazer pelos Direitos Humanos para que a sociedade do século XXI faça vingar os valores da paz, da igualdade, da justiça, do trabalho, da liberdade… Todos temos responsabilidades e não devemos olhar o sofrimento dos outros como um problema alheio mas como uma dificuldade da comunidade que urge resolver.
À semelhança de José António Caride acreditamos que “ainda na incerteza, assumimos que não basta saber fazer ou saber ser. Além disso, é preciso reconhecer-se e saber-se, pessoal e colectivamente, como actores de uma História que ainda não acabou: partícipes da tomada de decisão, na interpretação dos desequilíbrios sócio-ambientais, no que fazer cívico, na determinação dos estilos de vida… Tarefas às quais a educação é chamada a restabelecer muitos dos seus significados perdidos e, se possível, a aceitar desafios que ampliem o seu protagonismo no desenvolvimento humano”.
Se a decisão política for no sentido de construir uma escola investindo na formação cívica dos professores em vez de imbróglios burocráticas que, mais uma vez, estimulam o medo e geram a desconfiança nas instituições então teremos esperança numa nova sociedade.

sábado, 14 de novembro de 2009

“Sabura é lá na nos terra Cabo Verde”

O nosso concelho tem, ao longo dos últimos anos, vindo a acolher centenas de jovens provenientes do arquipélago de Cabo Verde. Deslocados do seu país natal procuraram as nossas escolas a fim de lhes ser proporcionada uma educação diferente e uma perspectiva mais universal das sociedades modernas. Porém, muitas vezes, as comunidades de acolhimento reagem de forma menos humanista à integração destes novos actores no seu sistema social. O presente artigo pretende contribuir para uma reflexão mais profunda da nossa comunidade, muito marcada pela emigração, sobre as exigências se uma sociedade mais global que exige uma vivência cada vez mais intercultural.
Ao longo da História, o Homem, procurou sempre encurtar as distâncias que o separavam. Inicialmente, foi a procura da segurança junto de seres da mesma espécie, depois a procura dos melhores locais para se instalar (terras férteis, seguras e com água) e, por último, as trocas comerciais.
Desde muito cedo, se verifica que os recursos são escassos e que as necessidades humanas tendem a superar os ciclos naturais de produção/reprodução. Daí a demanda de novos territórios, mundos e experiências.
A sociedade actual, fundada mais nos primados da economia de mercado impõe severamente o poder do dinheiro e do lucro. Agora não estamos perante uma tribo que guerreia com outra pelo acesso à terra… o dinheiro compra essa terra! Tudo é negócio e tudo é negociável. O dinheiro é um factor de divisão (entre ricos e pobres) e de discriminação (acesso a uma vida com mais qualidade, mais saúde, mais justiça, mais cultura…).
Por outro lado, existem países que não se libertaram das amarras do despotismo, do fundamentalismo religioso, da opressão das mulheres, da falta de liberdade de expressão, ou seja, onde não existe o respeito pelos Direitos Humanos. As suas populações vivem oprimidas, perseguidas e completamente manietadas pelos detentores do poder que as impedem de viver com dignidade.
Existem também países que, vivendo em paz e com uma economia razoavelmente boa, não oferecem aos seus nacionais aquilo que os realiza: pode não haver emprego na área específica da sua formação no país de origem; as empresas mais competitivas e tecnologicamente mais desafiadoras estarem noutras paragens; outras pessoas, podem simplesmente querer mudar completamente a sua vida e reiniciá-la noutro ponto do globo.
A globalização tornou ainda o mundo mais pequeno: a sociedade abriu-se vinte e quatro horas por dia; as distâncias deixaram de ter quilómetros e passaram a ser medidas em tempos (cada vez mais curtos); a televisão e a internet tornaram-se uma autêntica montra de luxo onde se podem encontrar os artigos que melhor servem os interesses de cada um. O mundo da imagem, do sonho, da felicidade instantânea, da realização fácil mesmo ao pé da porta desperta, mais uma vez, os genes “nómadas” do ser humano que, como sempre o fez ao longo da sua história e independentemente da cor, parte à procura do seu éden.
Ser europeu deixou, há muito de ser uma marca de atributos físicos e passou a ser uma questão de nacionalidade. Ser nacional significa o acesso ao sonho de origem do imigrante que partiu corajosamente em sua perseguição.

domingo, 8 de novembro de 2009

Unir a cidadania contra a delinquência … pelo nosso turismo e segurança!



A Federação Internacional do Automóvel divulgou, no final do passado mês de Setembro, um estudo sobre as preocupações dos portugueses na hora de escolher o seu destino de férias. Dos resultados, divulgados no "Dia Mundial do Turismo", conclui-se que - numa escala de zero a dez - a segurança (9,3), a qualidade da água e das praias (8,9) e a beleza natural (8,8) são os três factores que os turistas têm em conta aquando da escolha do seu destino de férias.

Vila Praia de Âncora, infelizmente, ainda não conseguiu resolver os seus problemas ambientais relativamente à qualidade da água embora disponha de uma beleza natural única. O que, por si, afasta os turistas que procuram qualidade e que estão disponíveis para gastar dinheiro durante as suas férias.

A nossa terra luta há décadas pelo reconhecimento de destino turístico de grande importância no contexto da região norte de Portugal e da Galiza. Mas, essa honra tarda em chegar, não só por culpa da falta de exigência dos ancorenses mas também pela fraca qualidade dos responsáveis políticos que, ao longo dos anos, têm gerido os interesses desta vila. Para além da natureza nada mais há a acrescentar a esta terra que parece um estaleiro em permanente actividade e onde os operários teimam em não acertar de vez com a qualidade final do produto.

No entanto, desde há uns anos a esta parte, veio juntar-se a este outro problema maior: a insegurança. Fenómeno multiforme, que envolve uma complexidade de conflitos e comportamentos, a violência tornou-se um drama, associado as causas predominantemente sociais, que assume contornos e dimensões preocupantes na nossa comunidade. O medo gerado pela violência amputa a vida social e isto repercute-se na mobilidade das pessoas, não apenas alterando os roteiros quotidianos, mas influenciando também as viagens e o turismo.

Neste contexto, pode-se dizer que a segurança pública constitui-se um elemento indissociável da rede de ofertas e serviços imbricados ao atendimento turístico, representando-se como um factor importante e condicionante da imagem de Vila Praia de Âncora como destino turístico. Quando o destino turístico começa a incorporar vulnerabilidades, o turista antevê riscos e tende a mudar a sua rota. Num mundo regido pela insegurança, pelo medo da violência, qualquer sinal de instabilidade pode resultar na rejeição a um determinado destino.

Já não basta a crise, a falta de qualidade da nossa água para agora assistirmos a um desconcertante flagelo social que transformou a paisagem humana ancorense. De terra de gente pacata e acolhedora passamos a ver jovens, organizados em bandos, que circulam suspeitosamente por locais que todos identificamos manifestando uma atitude agressiva e comportamentos pouco civilizados.

Infelizmente e como todos constatamos, verificam-se roubos, vandalismo, tráfico e consumo de estupefacientes, agressões e muito desrespeito pelos outros e pelo espaço público como local de convívio e de tolerância.

A nossa terra tem duas estações que outrora eram símbolo da sua importância demográfica, turística e comercial. Passados estes anos e com uma população residente muito maior verifica-se o encerramento da estação e o definhamento progressivo do nosso apeadeiro.

Um apeadeiro por onde passam diariamente centenas de pessoas e que é caracterizado por uma construção completamente vandalizada, onde se agrupam jovens para consumir e negociar e onde até agressões e furtos têm frequência garantida. Toda a gente sabe mas, ao que parece, todos consentem!

É preciso que alguém se dedique a estes jovens e os ajude a encontrar um caminho seguro para eles e para todos nós. Um trilho que se cruze com a paz e a tolerância. Resolver os problemas da exclusão social e dos estupefacientes solucionará muitos dos problemas de segurança que se verificam por cá.

Já que a nossa classe política parece alheada deste fenómeno cabe à cidadania sair à rua e manifestar-se publicamente em favor duma comunidade mais segura onde os nossos carros, as nossas casas, os negócios, as empresas e até a nossa integridade física e moral estejam devidamente acautelados como consagra a nossa Constituição.

A manifestação cívica é uma marca das sociedades que perderam o medo e que saiem à rua contra o crime, veja-se o caso dos nossos vizinhos espanhóis ou de outros movimentos que, por esse mundo fora, lutam pacífica e democraticamente pela paz e a segurança de todos.

sábado, 17 de outubro de 2009

Obrigado, Senhor Armando!

Nestas eleições autárquicas, assistimos à saída de cena da política local de um dos servidores da coisa pública que sempre admirámos, o Sr. Armando Joaquim Pires, Presidente da Junta de Freguesia de Gondar.
Conhecemos o Sr. Armando há mais de duas décadas e queremos, no artigo de hoje, homenagear publicamente a sua pessoa e o trabalho que realizou ao longo dos seus mandatos à frente da Junta de Freguesia de Gondar que, sempre com muito orgulho, levou no seu discurso e na sua obra.
Ao longo dos anos, conhecemos o homem educado e aparentemente tímido que, pela sua simplicidade, conquistava o espírito daqueles que com ele privavam. A sua humildade nunca passou despercebida àqueles que, concordando ou não, disputaram ideias e projectos políticos. O seu respeito pela dignidade humana e as preocupações que sempre manifestou com as desigualdades e a exclusão social (principalmente dos idosos e das crianças) acabou por se traduzir num discurso jovial, de esperança e de desenvolvimento para a terra que sempre representou.
Como referimos, o Sr. Armando, é um homem de poucas palavras mas que domina a prosa como poucos porque nos fala directamente do seu ao nosso coração. Nunca precisou de esconder o que pensava pois o seu combate foi sempre a luta pelo desenvolvimento e o bem-estar daqueles que, ao longo dos anos, lhe deram a confiança da gestão da sua terra.
Homem sempre magnânime, soube escolher a altura de se retirar… teve a categoria e a iluminação – que muitos esquecem – de reconhecer que, em democracia, o poder não deve ser estático e personalizado. Assim, nestas eleições, decidiu que estava na hora de deixar a freguesia escolher um novo líder e retirar-se para um descanso bem merecido.
Deixou-nos o modelo do autarca deste século que acabou de começar porque foi um visionário, um lutador e um democrata. O político que conhecemos soube sempre respeitar e trabalhar em equipa com as oposições, tendo sempre defendido os seus colegas autarcas (fossem ou não da sua cor partidária).
A sua retirada exemplar completa a sua imagem humanista comprometendo o seu sucessor José Manuel Cunha. Lembramos aqui Montesquieu que afirmava que “é indispensável compensar a grandeza do poder pela brevidade da sua duração”. Outros presidentes de junta houve, nestas eleições, que não tiveram iluminação suficiente para saber sair com a dignidade que o desprendimento do poder nos dá. Como sempre foi, igual a si próprio, o Sr. Armando retirou-se calmo mas decidido… tal como nos habituou.
Neste artigo, manifestamos publicamente a nossa admiração e estima por este lutador incansável pela melhoria das condições de vida dos gondarenses e do vale do Âncora. A distância temporal conduzir-nos-á ao julgamento justo da história da nossa terra e do papel que um homem simples - mas determinado - teve no desenvolvimento da sua freguesia.
Obrigado, Sr. Armando!